[Vejo, ao fundo, alguém que reconheço.]

Lavada de chuva, inventa-se livre. Dança, inquieta, como um pássaro que avista um temporal. Dança e chama por ele. [Avisa quem o olha.] Contempla as nuvens, tenebrosas, mergulhando sobre as poças que tornam o chão em espelho.

[Começo a escrever, pingando ideias, que me escorrem pelos cabelos…]

As suas mãos, franzinas, tremem como as árvores, encantadas pelas forças que lhes transcendem… Os ventos, sopranos, deslizam pelos seus ouvidos, curiosos, assobiando trovoadas que se transformam em arrepios vertiginosos.

[Contemplo-a, invejando-a carinhosamente, abrigada.]

A forma dos seus gestos, desprendidos de um mundo de afectos, imita os de uma bailarina, orgulhosa dos seus pés.

[Corpo que saboreia o medo... Receia a chuva, receia o vento, receia o sol. Apenas o abrigo de um modesto café, refundido, me acalma o morto…]

Quando me apercebi do que esqueci, abriram-se as portas, apressadas por ventos orgulhosos. Agarram-me pelos cabelos e levaram-me para recebe-los.

[As árvores retornam como gente, os ventos como vozes e as poças como manchas de café que fui entornando.

Saí do café, cantarolando sob um manto de cores. Meço assim os paços, os desvios e os saltos por novos tambores.]

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