Sabes quando te apercebes do complexo que criaste de que nunca ninguém olhou para ti e te viu?  Pior ainda, tomares consciência que não fazes ideia de como te comportar à luz do dia!? Mesmo sabendo que foste tu que te fechaste a sete chaves, mal te deparaste com as primeiras rejeições? Quando tentaram já era tarde. Já eu sabia me defender, de forma totalmente errada, o melhor que soube, na minha independência-dependente precoce.

Faltam-me muitas memórias, vivo intuitivamente, fui constantemente protegida pela minha irmã, a minha guardiã, que me afastava do negro, que podia sentir sem ver. Ela própria tanto me protegia como me magoava, pois era mais velha, já os espelhava... mas isso são detalhes para outras horas... também eu caí...

O resultado reflectiu-se na criação de um véu, a minha verdade existia e ainda existe de alguma forma apenas no meu interior. Longe das pessoas, de todas as pessoas, escondido, fechado à chave. Escolhi separar-me de mim mesma, construir dois mundos, bem sólidos. “Ninguém será merecedor da minha verdade”, dizia eu rancorosa desde cedo e quando eu digo cedo, digo desde que tenho memórias ou desde que faço histórias.

Os espelhos mais próximos não reflectiam a minha verdade. Esse não era o meu caminho. A maturidade emocional era fraca e a falta de coragem perante as emoções fortes que brotavam do meu ser, escondiam-se atrás de um ego inflamado. Tornei-me eu espelho, que belo reflexo... pensava eu cheia de desdém, pois de fora, olhava para a minha própria sombra, que vivia na terra, em rebanho, mas em revolta como qualquer artista infante.

Aprendi a não confiar em quem sou ao pé de outras pessoas, qualquer uma (mais tarde tomei essa consciência) pois era demasiado fácil ir com a corrente, bastava desligar e funcionar em modo hibernação.  Construí um ego bastante inteligente que me protegia e aos meus, completamente fragmentada, perdida no labirinto do meu próprio inconsciente. Bastava aquele corpo e pouco menos de metade de mim para existir ao pé de outros. Quando me fartava bastava destruir alguma coisa e a vida seguia um pouco mais intensa.

Sempre fui amiga dos renegados, do gordo, do feio, do burro, da miúda vinda de fora, da bipolar, da lésbica ou do reprimido, enfim era amiga de todos aqueles personagens que eram tão mais do que os estereótipos que lhes depositavam desde cedo. Estes eram os meus espelhos, os meus guerreiros. Os que me ajudavam a ser e a exercitar a sabedoria que ia recolhendo. Fugir da realidade era o prato do dia e assim me sentia livre, em comunhão.

(...)

Hoje após ter acarinhado o rancor que sentia, após ter feito as pazes, da forma que me é possível, com a sociedade imperfeita em que vivemos, núcleos familiares, etc. Tento partir o muro que construí à minha volta... que bela construção! Com vidros fumados à prova de bala! O que hoje mais me atinge, é completa estranheza em me revelar vulnerável, a fragilidade de um corpo franzino cheio de ansiedade e hormonas desregulada e a consciência da vontade extremista em unir os dois ou na verdade vários mundos, tão bem edificados, que me ajudaram a sobreviver desde que me lembro de ser.

Até quando é que eu quero viver em separação? Pois a verdade é que o meu interior continua a ser o meu maior tesouro, os textos são apenas mais uma dimensão onde eu me escondo, mas também são uma etapa essencial da jornada. Sou consciente da maioria destes processos, a dualidade devolve-me consciência renovada, sim o processo é lento, pelo menos na minha concepção impaciente, mas também isso serve como mote para sonhar em transmutar, no agora! A frustração terá de ser resolvida aos poucos. Sonho no dia em que uno a minha dimensão física com todas as pessoas reais e luminosas com que me deparo. Algo que no astral fazemos instantaneamente. E mesmo vivendo conscientemente dessa disparidade, ainda caiu no vício de criar histórias para todas elas, nunca saberei o que é real, se continuar a insistir neste meu exercício de divisão, do mundo encantado/pesadelo, onde sempre me protegi e escondi.

Sonho em simplesmente ser, em comunhão, em construção, em abertura.

Dizem que o escuro não existe quando exposto á luz, é por isso que paraliso na dimensão física perante alguém que integra naturalmente os dois polos, vejo-me tal e qual um animal que se finge de morto, para afastar o perigo. Pelo menos é o que o ego me diz, já a consciência senta-se lado a lado com essa fraqueza e ama-a simplesmente. Dada a fraca experiência em comunicar com tais seres, continuo a paralisar, sabendo em essência que o escuro já não é confortável, ou melhor, ainda o é, pois valorizo os seus ensinamentos, mas já não é esse conforto que procuro.... tenho sede daquilo que ainda estou por descobrir. Dentro de mim, no outro, em verdade. Definindo novos limites, mais abertos. Até ao dia em que a conseção da palavra limite seja uma noção ancestral, como um ensinamento explorado à nossa medida, ainda limitada.

A verdade é que temos de integrar tanto a sombra como a luz,  chega de escolher entre eles, próprio de quem quer apenas fugir e rejeitar a sua dimensão conjunta. Sempre nadei em águas soturnas, foi nelas que descobri a luz da lua e das estrelas, a minha própria, vi-me ao espelho pela primeira vez, nessas águas negras e nem sempre calmas, mas quero também nascer com o dia, ver as cores na sua verdade, ver as diferenças e saber que a diversidade existe também dentro de mim.

Comecemos pela dimensão física, que ainda nos é tão abstrata, para muitos onde é mais fácil integrar tais noções duais, para mim onde paraliso e planifico a fuga, na maioria das vezes, repito isto para perceberem que não existe um modelo para todos. Concencentremo-nos em unir a dualidade na dimensão consciencial, emocional e em todas as dimensões, multidimensões de que o ser humano se constitui.

(...) É por isso tão fulcral unir-mos a sabedoria de cada indivíduo. Curar a família, expressar o que captamos dos nossos processos internos e externos. Somos antenas, transmitimos registos, criamos exercícios, curas, novos processos. E quando digo novos, digo nesta dimensão, na nossa realidade diária.

Cada semente deve brotar e revelar os frutos da sua transformação pessoal, esta sabedoria tem de ser exposta, da forma que vos for mais sincera, por livre escolha. É talvez através da partilha da viagem interior e exterior que podemos descobrir muitos dos segredos que continuam guardados à chave, sobre o universo, sobre o cosmos, sobre nós. Espelho o nosso inconsciente com as dimensões de que nada conhecemos do nosso próprio ADN e também com a matéria negra do cosmos. Onde os registos flutuam, onde somos casa, potêncial na sua forma mais pura. Ainda algo que só em versos me atrevo a expressar.

A chave revela-se no exercício de desbloqueio das nossas próprias fechaduras, rebentar com as portas através da força amorosa que nos une. Estamos finalmente a revelar uma nova consciência em massa e temos de sentir coragem, para primeiramente deixar que se revele através da nossa essência e da nossa conduta individual, depois da sociedade como um corpo único, ninguém disse que o caminho seria fácil, mas sei sem dúvida, que é e será recompensador,  só assim será possível que os segredos do universo sejam revelados, perante a nossa nova verdade e luz.

Sinto que vivo como um fractal que espelha a grande mãe Gaia. Toda a minha jornada, tem se revelado, como um grande espelho dos próprios mecanismos que estruturam a realidade, ou parte dela, sei que a minha história tem um propósito, e pretendo honrá-la, honrar-me. Se assim tem sido, será demasiado pensar que até agora tenho participado de forma activa na construção da realidade em que vivo? Será que não está na hora de mudar uma vez mais? De forma responsável. Os frutos vão sendo recolhidos, estas novas camadas de consciência vão sendo integradas no meu corpo e dimensão física, a realidade revela-se sintonizada com o meu nível de presença e união entre as minhas múltiplas dimensões. Que não são minhas, tenho consciência que apenas aparentam ser minhas para que as manifeste, para que sejam minhas aqui, em comunhão com o ego, com a dimensão física, por agora esta é a melhor definição de dualidade que consigo expressar.

A própria dimensão de dualidade tem a sua polaridade, em consciência, sinto-a una.

(...)

Na verdade sinto que tudo está á vista, desejo que a nossa cegueira conjunta seja curada, o meu testemunho é uma tentativa nessa direção.

Hoje falamos da integração da luz e da sombra, de unicidade, de sementes e frutos, em breve virão novos desafios, novos saberes. Prepararem-se pois a hora da partilha chegou.

Até agora, mais tarde, em união. 

Comentários

Mensagens populares deste blogue