Tenho sentido falta de escrever, uma saudade repentina, inquietante, que me invade de forma repreendedora, como se me dissesse: Então não tens nada para dizer? Paro alguns segundos para refletir. Nesse momento sei que tenho pelo menos duas escolhas, inundar-me em ilusões de que nada tenho para dar ou simplesmente começar.
A companhia a que me concedo tem me ensinado que essa voz autoritária é na verdade uma grande conhecedora da minha própria natureza, é parte de mim, esmaga-me até ao dia que completa o seu ciclo, o mesmo em que eu paro, reflito e digo em pensamento: Não ter nada a dizer, é um assunto maravilhoso!
O vazio é na verdade a ilusão perfeita para começar. Essa voz que me esmaga é a mesma que me alimenta.
Dei por mim a usar como desculpa, para não ter nada a dizer, o facto de estar demasiado embrenhada com a minha realidade diária. Vagueio pela memória das minhas experiencias e dou comigo a lembrar-me de expressões como: Tens de ter os pés na terra! É engraçado como tanta a gente o diz, ou melhor, o repete, sem pensar no seu verdadeiro significado.
O que é isto de ter os pés na terra? Sinto instantaneamente uma inundação e encruzilhada de pensamentos e experiencias misturadas, todas elas importantes, invadem-me em simultâneo à espera de qual será a escolhida. Esse momento é crucial, tento ao máximo ouvi-las como um todo, esse ouvir faz-se com o coração, sabendo que para as comunicar terei de as sequênciar, separar, dar carinho e tempo uma a uma de cada vez.
Passo a explicar, uma parcela desse sentir, desse ouvir:
Dava por mim a querer fugir ao máximo de tudo o que tivesse a ver com a expressão "ter os pés na terra", que expressão horrorosa, pensava eu! Isso era porque só sabia o significado que a maioria lhe confere, sentia o fechamento que a mesma tem ganho ao longo dos tempos. Já sentiram algo deste género? Quando transformam algo tão importante, bom e educativo, em algo repressivo, redutor e autoritário?
Ter os pés na terra, para mim, é sentir-me conectada com a minha natureza. Por sua vez essa natureza nunca poderá ser separada da natureza da terra, de que sinto ser filha. A natureza do nosso planeta, a que chamamos hoje Terra, nunca poderá ser separada do Universo de que certamente é também filha e por ai adiante, num loop eterno da procura da origem da vida, algo demasiado longínquo, para que me possa pronunciar hoje fluidamente.
Ter os pés na terra, pode ser o chamado enraizar, uma prática milenar, tão simples quanto nos descalçarmos, sentir o solo, abraçar as árvores, sentir o vento, ouvir o mar, conectar com animais e plantas, mas na verdade nem isso é necessário, pois repito sou fruto da Terra, o facto de o saber e sentir como uma verdade basta para "ter os pés na terra".
Desde que dei o salto para acreditar naquilo que sinto em relação a este conhecimento, a vida tornou-se muito mais terrena, bela, segura, frágil, fértil, criativa, apaixonada, real, desperta, abundante... Hoje não fujo tanto desta realidade, pois sei que posso redefinir aquilo que tem sido deturpado, basta sentir e ouvir, refletir e movimentar, ter foco e confiança, abertura e prazer ao descobrir o meu contributo por estar viva.
Hoje tenho os pés na terra mesmo que o meu espírito reconheça que existe muito mais para lá disso, o mesmo alinha-se cada vez mais com esta casa, corpo e realidade. Quando redefinimos aquilo que nos aprisiona, libertado-nos instantaneamente.
Hoje aceito melhor a miúda inquieta que sou, com os pés bem assentes na terra e só isso vale todos os momentos em que ouvi aquela voz que tanto me assombra e me desperta em simultâneo.
Por isso obrigado voz! Hoje posso dormir mais tranquila, sabendo que contuarei em desassossego a ouvir e a escrever.
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